Li uma matéria recentemente sobre maquiagem definitiva no Bolsa de Mulher e devo dizer: Tenho um certo preconceito com essa técnica. Assim como com cirurgias estéticas desnecessárias e com o fato de muitos médicos acharem que a solução do mundo está na pílula anticoncepcional.
Conheco gente que fez maquiagem definitiva por estética e por outros motivos. Tem um caso de câncer, em que a mulher perdeu todos os pêlos e refez a sombrancelha. Tem um caso que apareceu no programa “What Not To Wear” (1) que tinha aumentado o tamanho da boca com essa técnica e não era algo muito bonito. E a mulher parecia um abacaxi. Um caso discreto e que não ficou ruim foi um em que foi feito o contorno dos olhos com um tom delicado de castanho.
Na matéria, Sylvia Dietrich fala em eliminar o ritual diário de beleza ao acordar já linda e maquiada.
Em primeiro lugar, maquiagem definitiva dói. E, querendo ou não, é tatuagem. Você passa 3 anos com a pele pintada e, ao chegar perto do “prazo de validade”, a maquiagem vai desbotar. Então, naquele dia em que você não passaria, digamos, lápis de olho, será obrigada a usar, senão vai ficar estranho, porque a tatuagem do delineador está desbotando.
Pra mim, maquiagem é um ritual de auto-adoração: parar na frente do espelho e fazer algo que vai deixar sua aparência ainda melhor. É chegar normal e sair do espelho se sentindo mais confiante. Dependendo do caso (uma festa, por exemplo), se sentindo poderosa, sexy ou seja lá qual foi a intenção do monte de tinta, creme e/ou pó que coloquei no rosto. E o melhor é tirar tudo antes de dormir e deixar o rosto limpo como uma tela. Pronto para receber uma pintura diferente no dia seguinte.
A graça da maquiagem é essa. Hoje só um pó compacto, um batom e um rímel, para dar uma cor ao rosto mas manter a seriedade. Mais tarde, lápis de olho junta-se ao pacote, para ver o namorado. No fim de semana, olhos bem marcados, com direito a olho-de-gato e cor forte nos lábios. Ou pálpebras com tons coloridos para curtir a festa. De séria jornalista à “party girl“, às vezes mudando apenas a maquiagem e os acessórios.
No mais, se arrumar deveria ser ritual obrigatório. Não porque faça bem aos olhos dos outros, mas porque faz bem a nós.
Pré-festa. Nada grande, só uma reunião de amigos na casa de alguém. Um bom banho. Aquele vestido simples, mas bonito e que faz maravilhas às suas pernas. Pó, iluminador, lápis de olho, máscara para cílios (descobri que rímel é feito gilete: não é o nome do produto, mas uma das marcas que o fabrica), talvez blush, bem pouco. Batom claro ou gloss. Para finalizar, perfume. Aquele marcante. Pronto. Não apenas está pronta para aproveitar a festa, mas, se você curtir um ritual como esses com calma, estará pronta para chamar a atenção daquele interessantíssimo amigo do seu amigo que está presente. Ou para levar seu namorado para uma festa particular depois do “tempo obrigatório de permanência”. Não porque você aparenta estar bonita, mas porque se sente bonita.
A maquiagem tem um grande papel nessa história. Ela serve como máscara do que você está sentindo. Se você faz uma maquiagem sexy, ao terminar provavelmente assumirá esse “personagem” sexy que desenhou no seu rosto. Não que seja alguém inventado, é apenas uma faceta sua que está colocando para fora.
Não que vá mudar completamente o que você sente. Se está de mal-humor, estressada, latindo pra qualquer um que passe na frente, não é um blush e um gloss que farão de você uma pessoa mais simpática. Mas se respirar fundo, lavar o rosto e for se divertir com a maquiagem, a brincadeira pode te acalmar e, aí sim, talvez ajudar a colocar a “Miss Congeniality“* que há dentro de você para fora.
E falo em brincar e se divertir porque, lá no fundo, ainda tenho 5 anos e brinco com a maquiagem e a roupa da mamãe. A diferença é que hoje a roupa da mamãe cabe perfeitamente, já sei passar o batom sem borrar e já posso comprar meus próprios apetrechos.
Rodei, rodei, rodei e não cheguei no ponto principal: a maquiagem definitiva dói e, como o próprio nome diz, é definitiva. Se você pinta seus lábios de vermelho hoje, vai passear por aí com a boca rubra até num funeral, que você decididamente preferiria estar com um tom de boca, pra prestar respeito. Se resolve que não gosta das suas sombrancelhas e resolve arrancar tudo e fazer uma nova, na melhor das hipóteses vai parecer um travesti. E os pelinhos crescerão novamente. E a probabilidade da sombrancelha maquiada não combinar com seu rosto é grande.
Tem uma moça que malha na minha academia que tem sombrancelhas, contorno dos olhos e da boca maquiados. É estranho. Parece um travesti. E não fica nada legal aquele contorno vinho ao redor dos lábios e a boca sem batom. O suor escorrendo por cima das sombrancelhas pintadas.
Acho válidas essas técnicas, porque sempre há quem precise delas. Como fala na matéria do Bolsa, serve para esconder cicatrizes, refazer mamilos e como eu falei, redesenhar pêlos que certas pessoas perderam. Mas, apesar de adorar uma futilidade de vez em quando, tem coisas que passam dos limites.
(1) What Not To Wear: programa britânico da TLC, exibido no Brasil pela People&Arts sob o nome Esquadrão da Moda. Já existem as versões americana e brasileira.
* Miss Simpatia









