- E então? O que você faz?
- Eu me escondo embaixo da mesa.
- Mesa? Que mesa? Você tá no meio da rua, tem um cara apontando a arma pra você!
- Eu não quero nem saber! Vou me esconder aqui e você que foque em outro jogador! O cara que se exploda!
- Não pode ser assim… Olha: você não tem as habilidades de luta? Não tem o poder de cegar? E o de confudir?
- Mas eu não sei o que fazeeer!!! É complicado demais pra mim!!!
- Sai debaixo da mesa e pára de esconder o rosto!
- Não!
A negativa sai abafada por causa das mãos.
- Dá pra parar de agir feito criança? Não foi você que inventou de jogar?
- Foi, mas…
- Mas o quê?
- Mas eu não sei o que fazer!!!
- Vem, senta na cadeira. Vamos conversar…
- Tá…
Ela se levanta do chão e senta na cadeira, o rosto transtornado. Os outros jogadores olham espantados para a criatura amedrontada. Apesar dos vários anos de jogo, jamais viram alguém se comportar de tal forma.
- Por que tudo isso?
- Eu fico nervosa!
- Por quê?
- Porque sim! Sei lá! Eu fico!
- Mas você não conhece o pessoal? Não passa horas conversando com eles?
- Ééé, mas…!
- Mas o quê?
- Não é isso! Você quer me matar!
- Ninguém quer matar você! É uma oportunidade pra sua personagem mostrar as habilidades de combate dela.
- Não quero mais!
- O quê?
- Combate. Me estressa.
- E quer fazer o quê? Sentar na cadeira de balanço da vovó e bordar um babador, com um gatinho no colo?
- É uma boa perspectiva.
A essa altura os outros já estão segurando o riso em volta da mesa.
- Aí não tem história! Você tem o único personagem que realmente agüenta apanhar e fica fazendo drama!!
- Mas eu sou uma pessoa pacífica! O personagem também! Você disse que ela só podia fazer alguma coisa se fosse caso de vida ou morte!
- O cara está a dois metros de você, apontando uma pistola na sua cara. Só não vai sair bolhinhas de sabão dali!
- Tá… Tá bom.
- Olha aí na ficha. Não tem um monte de coisas que você pode fazer?
- Teeem…
- E então?
- Tá. Eu vou cegar ele.
Dados rolam. O resultado não faz sentido algum para ela, mas o narrador faz as contas e diz que não, ela não foi capaz de cegar o assassino.
- Ele atira em você.
- Aiaiaiaiai! Não quero mais!
- Deixa de ser besta! Desvia aí que você pode! Joga os dados!
Dessa vez o resultado é favorável. A bala não acerta, pois ela desvia “dando uma estrelinha”. Ela é informada que deve fazer outra ação.
- E o que faço? Posso chegar perto e bater nele?
- Pode.
- Tá.
Ela lança os dados e olha para o lado. O narrador pergunta aonde ela bateu e pede para jogar o dano. O assassino cai ao receber uma joelhada entre as pernas e fica atordoado. A assustada jogadora descobre que pode fazer mais alguma coisa e decide continuar batendo. Cotoveladas, joelhadas, chutes, socos… Por um acaso do destino – ou revolta dos dados – o pobre coitado do assassino não consegue reagir.
- Ele está desacordado.
- Então eu…
- Então nada. Você vai matar ele! Seu personagem é pacífico, esqueceu?
- Não posso matar nem um pouquinho?
- Bom… você vai perder pontos e a polícia vai vir atrás de você no jogo.
- Não quero mais!
- Não quer mais o quê, cara***!?¹
- Jogar! Quando eu não quero bater, você diz que eu tenho que bater! Quando eu quero, você não deixa! Não tem graça assim!
- Primeiro você não quer bater! Se esconde embaixo da mesa e começa a choramingar! Depois quer fugir às limitações do personagem que você mesmo fez! Tá pensando que é a casa da mãe Joana?
- Não, mas… Ah. Tá. Eu vou embora então!
- E o cara?
- Deixo um bilhetinho pedindo desculpas e mandando um beijinho.
O narrador apóia os cotovelos na mesa e a cabeça entre as mãos. Olha para a cara do amigo sentado a sua frente com a expressão de “o que é que eu faço com essa criatura?” enquanto o amigo ri, bem como os outros. A menina começa a puxar conversa sobre outra coisa com o cara sentado ao lado dela e o narrador amaldiçoa-se pela bendita hora em que resolveu chamar a namorada para jogar.
¹ Isso ainda é um blog de família.
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Porque diálogos são sempre bons para fazer atualizações rápidas no blog. =D
Inspirado na campanha de GURPS que o digníssimo está tentando mestrar para mim e 3 outros amigos deles, na minha vontade de gritar e me esconder embaixo da mesa e no desespero que imagino que ele deva sentir quando eu resolvo que não sei o que fazer e que quero me esconder embaixo da mesa.
Só para constar: eu não tenho a presença de espírito nem de dizer uma frase com mais do que 5 palavras, quem dirá de espancar um cara com uma arma na mão?! Quem diria que uma pseudo-escritora e pseudo-jornalista não seria capaz de lidar com essas situações…










4 respostas até agora ↓
Michael // Setembro 15, 2008 às 11:04 am
É né, mas a bem da verdade é que não foi bem asim essa história, tirando a parte que vc s escondeu entre as suas mãos… XD
Fernanda Eggers // Setembro 15, 2008 às 11:31 am
Huahuahauah!!!
Pq isso é um conto, ora bolas! Apenas baseado na realidade, não um retrato fiel dela.
E eu nem lembrava que eu realmente andava me escondendo entre minhas mãos… Oo
Michael // Setembro 15, 2008 às 11:33 am
acontece…^^
pisterovix // Setembro 16, 2008 às 7:16 pm
rpgs podem mudar – e efetivamente o fazem – a vida de pessoas. mas, mais freqüentemente, são bons espelhos hehe
no final, você deixou bilhetinho, abateu, como é?