Free Time?

O Assassino

Setembro 14, 2008 · 4 Comentários

- E então? O que você faz?

- Eu me escondo embaixo da mesa.

- Mesa? Que mesa? Você tá no meio da rua, tem um cara apontando a arma pra você!

- Eu não quero nem saber! Vou me esconder aqui e você que foque em outro jogador! O cara que se exploda!

- Não pode ser assim… Olha: você não tem as habilidades de luta? Não tem o poder de cegar? E o de confudir?

- Mas eu não sei o que fazeeer!!! É complicado demais pra mim!!!

- Sai debaixo da mesa e pára de esconder o rosto!

- Não!

A negativa sai abafada por causa das mãos.

- Dá pra parar de agir feito criança? Não foi você que inventou de jogar?

- Foi, mas…

- Mas o quê?

- Mas eu não sei o que fazer!!!

- Vem, senta na cadeira. Vamos conversar…

- Tá…

Ela se levanta do chão e senta na cadeira, o rosto transtornado. Os outros jogadores olham espantados para a criatura amedrontada. Apesar dos vários anos de jogo, jamais viram alguém se comportar de tal forma.

- Por que tudo isso?

- Eu fico nervosa!

- Por quê?

- Porque sim! Sei lá! Eu fico!

- Mas você não conhece o pessoal? Não passa horas conversando com eles?

- Ééé, mas…!

- Mas o quê?

- Não é isso! Você quer me matar!

- Ninguém quer matar você! É uma oportunidade pra sua personagem mostrar as habilidades de combate dela.

- Não quero mais!

- O quê?

- Combate. Me estressa.

- E quer fazer o quê? Sentar na cadeira de balanço da vovó e bordar um babador, com um gatinho no colo?

- É uma boa perspectiva.

A essa altura os outros já estão segurando o riso em volta da mesa.

- Aí não tem história! Você tem o único personagem que realmente agüenta apanhar e fica fazendo drama!!

- Mas eu sou uma pessoa pacífica! O personagem também! Você disse que ela só podia fazer alguma coisa se fosse caso de vida ou morte!

- O cara está a dois metros de você, apontando uma pistola na sua cara. Só não vai sair bolhinhas de sabão dali!

- Tá… Tá bom.

- Olha aí na ficha. Não tem um monte de coisas que você pode fazer?

- Teeem…

- E então?

- Tá. Eu vou cegar ele.

Dados rolam. O resultado não faz sentido algum para ela, mas o narrador faz as contas e diz que não, ela não foi capaz de cegar o assassino.

- Ele atira em você.

- Aiaiaiaiai! Não quero mais!

- Deixa de ser besta! Desvia aí que você pode! Joga os dados!

Dessa vez o resultado é favorável. A bala não acerta, pois ela desvia “dando uma estrelinha”. Ela é informada que deve fazer outra ação.

- E o que faço? Posso chegar perto e bater nele?

- Pode.

- Tá.

Ela lança os dados e olha para o lado. O narrador pergunta aonde ela bateu e pede para jogar o dano. O assassino cai ao receber uma joelhada entre as pernas e fica atordoado. A assustada jogadora descobre que pode fazer mais alguma coisa e decide continuar batendo. Cotoveladas, joelhadas, chutes, socos… Por um acaso do destino – ou revolta dos dados – o pobre coitado do assassino não consegue reagir.

- Ele está desacordado.

- Então eu…

- Então nada. Você vai matar ele! Seu personagem é pacífico, esqueceu?

- Não posso matar nem um pouquinho?

- Bom… você vai perder pontos e a polícia vai vir atrás de você no jogo.

- Não quero mais!

- Não quer mais o quê, cara***!?¹

- Jogar! Quando eu não quero bater, você diz que eu tenho que bater! Quando eu quero, você não deixa! Não tem graça assim!

- Primeiro você não quer bater! Se esconde embaixo da mesa e começa a choramingar! Depois quer fugir às limitações do personagem que você mesmo fez! Tá pensando que é a casa da mãe Joana?

- Não, mas… Ah. Tá. Eu vou embora então!

- E o cara?

- Deixo um bilhetinho pedindo desculpas e mandando um beijinho.

O narrador apóia os cotovelos na mesa e a cabeça entre as mãos. Olha para a cara do amigo sentado a sua frente com a expressão de “o que é que eu faço com essa criatura?” enquanto o amigo ri, bem como os outros. A menina começa a puxar conversa sobre outra coisa com o cara sentado ao lado dela e o narrador amaldiçoa-se pela bendita hora em que resolveu chamar a namorada para jogar.

¹ Isso ainda é um blog de família.

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Porque diálogos são sempre bons para fazer atualizações rápidas no blog. =D

Inspirado na campanha de GURPS que o digníssimo está tentando mestrar para mim e 3 outros amigos deles, na minha vontade de gritar e me esconder embaixo da mesa e no desespero que imagino que ele deva sentir quando eu resolvo que não sei o que fazer e que quero me esconder embaixo da mesa.

Só para constar: eu não tenho a presença de espírito nem de dizer uma frase com mais do que 5 palavras, quem dirá de espancar um cara com uma arma na mão?! Quem diria que uma pseudo-escritora e pseudo-jornalista não seria capaz de lidar com essas situações…

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