Como primeiro post de republicação, escolhi o texto Perguntas, publicado em 30 de Setembro de 2006 no Membrana Seletiva, porque segue o mesmo estilo dos textos sobre Timidez (parte 1 e parte 2).
Não fiz edição do texto. Divirtam-se!
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Sorrateiramente. Assim ela invadiu o quarto da outra criatura, adormecida em seu divã. Cutucou-a até que acordasse.
- Como você consegue?
- Como?!
O brilho cintilante de Imaginação chegou a diminuir um pouco. Vez por outra a culpavam por criar algo fora dos padrões que, às vezes, por mais estranho que fosse, se mostrava bom; em outros casos, podia ser um tanto quanto maléfico. A culpa não era dela, era de Insanidade Temporária. Que podia fazer se os outros estavam sempre discutindo e nunca notavam quando ela se soltava e tomava conta do Cérebro? Demorava até que Juízo a colocasse em seu devido lugar e restaurasse a ordem normal das coisas, principalmente se Espontaneidade a escondia. Imaginação olhou em volta e viu que não estava sendo acusada de nenhuma maluquice, era Curiosidade quem estava ali, com suas eternas perguntas.
- Como eu consigo o quê?
- Ah, você sabe, Imaginação. Como você consegue imaginar as coisas?
- Bom, é meu trabalho, eu acho. Nasci para isso. Me aproveito das coisas que os departamentos de Visão e Audição mandam, converso com Memória, imagino as coisas e Criatividade as ordena e desenvolve.
- E por que você estava dormindo? Não deveria trabalhar o tempo todo?
- Não, eu preciso descansar também! Não sou de ferro.
- Descansar de quê?
- De tudo, Curiosidade. Eu imagino tudo o que vai ser dito, escrito (a não ser que estejam copiando), imagino o que vai ser feito, imagino os sonhos. E o DSC (Departamento do SubConsciente) me cobra as coisas mais absurdas do mundo. Um monte de gente contrata os meus serviços, você sabe.
- Ah! Tipo quem?
Curiosidade tinha milhões de perguntas! Com seus grandes olhos perscrutadores, estava sempre pronta para captar quantas informações fosse possível; senão, como a própria dizia, “morreria de curiosidade”. Juízo e Mal-Humor já haviam cansado de repetir que ela não poderia morrer de si mesma, mas não adiantava.
- Espontaneidade, Bom-Humor, o RDD (Rede de Desenvolvimento de Desculpas)… Às vezes é tanto trabalho que peço ajuda à Insanidade Temporária!
- Mas isso não é proibido?
- Ora, Curiosidade! Você deveria saber disso! Não há nada proibido no Cérebro. Juízo é que é um chato e inventa essas coisas. Sempre querendo controlar tudo! Basta ir até lá, acompanhada de Bom-Senso, de preferência, e Juízo nem vai notar! Está sempre discutindo com alguém mesmo.
- Será que consigo convencer Bom-Senso a visitar Insanidade Temporário comigo? Queria tanto saber umas coisas!
- Por que você não vai lá e pergunta a ele? Aposto como adoraria te acompanhar!
Curiosidade foi, alegre e saltitante como uma criança que acaba de ganhar um ovo de Páscoa, atrás de Bom-Senso. Quais sandices Insanidade Temporária diria? Ou será que ela é mais “normal” que a maioria dos moradores do Cérebro e só se faz de louca? Será que poderia aproveitar que estava nas extremidades e fazer uma visitinha ao departamento de Visão? O Mundo Externo era tão interessante!
Imaginação suspirou e fechou os olhos, pronta para adormecer novamente. Curiosidade era uma gracinha, mas podia ser tão cansativa!










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