Na maior parte das vezes, só quem consegue acalma Timidez é uma figura que dorme a maior parte do tempo, mas que tem todos na mão quando acorda, só que ela não gosta muito do poder, quer apenas se divertir um pouquinho. Figura favoritíssima no Cérebro, melhor amiga da Imaginação, mas a míope Timidez não se deu conta da existência dela.
Libido acorda de um sono de novela, cantando como se fosse uma Princesa Disney recém-acordada, exalando cheiro de jasmim, já penteada, devidamente maquiada com os olhos bem marcados e a boca bem vermelha e envolta em um vestido vermelho à la Jessica Rabbit: lascão e decote de causar inveja, pelo conteúdo, inclusive.

Libido vai primeiro ao quarto-palacete-grego de Imaginação, recostada em seu divã, com o diáfano vestido branco drapeado e a faixa trançada envolvendo-lhe a cintura, como se tivesse sempre vivido na Atenas Clássica, com uma taça ao lado e conversando amavelmente com um de seus Pensamento pupilos. Ao ver a amiga, dispensa o aprendiz-ajudante, levanta-se e corre para um abraço. E as duas confabulam como irão tomar conta de tudo por algumas horinhas, só pela diversão da coisa.
Libido liga para Hipófise, pede que prepare seus licores, inclusive os especiais, e que convite Timidez para uma conversa sobre os velhos tempos, quando tudo o que havia era apresentar feiras de ciência e preparar hormônios de crescimento. Hipófise, feliz em ouvir a voz da garota, liga para Timidez.
“Tudo certo já!”
Depois de confabularem, Imaginação liga para o Inconsciente (a situação pede urgência maior que a do e-mail), manda produzir e enviar para ela Pensamentos novos, os mais ousados possíveis, e Libido vai passear pelo Cérebro, onde Juízo certamente sentirá seu perfume e irá dar em cima dela despudoradamente. Insanidade Temporária, com toda a sua ingenuidade, se solta, mas fica naquela de “O que tá acontecendo? Eu quero sabeeeeeeeeeeeeer!!!”, mas ninguém responde à coitada. Nem Intuição, que fica só rindo. Chega uma hora que ela se cansa e vai atrapalhar os Neurônios, que ficam entupidos de tralha e só funcionam aqueles que Imaginação guardou para si.
Os Pensamentos transitam de um lado para outro sem problemas, até que um deles, ousado além da conta, é notado pela Timidez, mesmo embriagada, que volta para a Central de Comando do Cérebro como se tivesse sido teleportada para perguntar a Juízo que disparate é aquele. Juízo, óbvio, se encontra por aí, preso pela visão das pernas de Libido, e Timidez solta furiosa todos os alarmes.
O corpo trava como nunca, se encolhe todinho. Os Pensamentos, principalmente os mais saidinhos, ficam naquela já citada posição “aimeudeuséagoraadeusvidacrueltavatãobompraserverdadesoutãorecémcriadopramorrer!” Dessa vez não tem Juízo do outro lado da linha pra dizer que tá tudo bem, que nada vai acontecer, nem Insanidade Temporária pra dizer que a “velha bruaca” só apita, mas não faz nada. Tá todo mundo perdido por aí, meio bêbado (ou seduzido) e sem saber se volta pro lugar certo ou não.
Libido suspira. Estava tão bom pra ser verdade… Dá um beijo no canto da boca de Juízo, e lhe diz em voz macia que fica para a próxima enquanto caminha levemente para seu quarto todo de cetim e seda, sem causar suspeitas na velha. Imaginação recolhe as obras que pode e as guarda. Cada um dos seres que habita o Cérebro balança a cabeça com tristeza e pensa: “Ela está velha, uma hora morre e pára de fazer esse auê todo por aqui.”
No Corpo ninguém pensa nada. Está tudo um caos por lá, o Cérebro está incomunicável e ninguém sabe o que fazer.
E a Timidez, no auge da sua fúria grita, esbraveja e reclama com todos. Mas, se um Pensamentozinho daquele resolve enfrentá-la, ela nem vê. Ou vê, acha fofinho, bonitinho, aperta as bochechas do “netinho” e deixa-o seguir caminho e ele, acanhado e confuso vai fazer, muito lentamente de início, aquilo que foi criado para fazer, seja isso dançar, cantar em público ou soltar no Centro de Fala um “cala a boca e beija logo”.









