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Timidez (Parte 2)

Agosto 8, 2008 · Deixe um Comentário

Na maior parte das vezes, só quem consegue acalma Timidez é uma figura que dorme a maior parte do tempo, mas que tem todos na mão quando acorda, só que ela não gosta muito do poder, quer apenas se divertir um pouquinho. Figura favoritíssima no Cérebro, melhor amiga da Imaginação, mas a míope Timidez não se deu conta da existência dela.

Libido acorda de um sono de novela, cantando como se fosse uma Princesa Disney recém-acordada, exalando cheiro de jasmim, já penteada, devidamente maquiada com os olhos bem marcados e a boca bem vermelha e envolta em um vestido vermelho à la Jessica Rabbit: lascão e decote de causar inveja, pelo conteúdo, inclusive.

Libido vai primeiro ao quarto-palacete-grego de Imaginação, recostada em seu divã, com o diáfano vestido branco drapeado e a faixa trançada envolvendo-lhe a cintura, como se tivesse sempre vivido na Atenas Clássica, com uma taça ao lado e conversando amavelmente com um de seus Pensamento pupilos. Ao ver a amiga, dispensa o aprendiz-ajudante, levanta-se e corre para um abraço. E as duas confabulam como irão tomar conta de tudo por algumas horinhas, só pela diversão da coisa.

Libido liga para Hipófise, pede que prepare seus licores, inclusive os especiais, e que convite Timidez para uma conversa sobre os velhos tempos, quando tudo o que havia era apresentar feiras de ciência e preparar hormônios de crescimento. Hipófise, feliz em ouvir a voz da garota, liga para Timidez.

“Tudo certo já!”

Depois de confabularem, Imaginação liga para o Inconsciente (a situação pede urgência maior que a do e-mail), manda produzir e enviar para ela Pensamentos novos, os mais ousados possíveis, e Libido vai passear pelo Cérebro, onde Juízo certamente sentirá seu perfume e irá dar em cima dela despudoradamente. Insanidade Temporária, com toda a sua ingenuidade, se solta, mas fica naquela de “O que tá acontecendo? Eu quero sabeeeeeeeeeeeeer!!!”, mas ninguém responde à coitada. Nem Intuição, que fica só rindo. Chega uma hora que ela se cansa e vai atrapalhar os Neurônios, que ficam entupidos de tralha e só funcionam aqueles que Imaginação guardou para si.

Os Pensamentos transitam de um lado para outro sem problemas, até que um deles, ousado além da conta, é notado pela Timidez, mesmo embriagada, que volta para a Central de Comando do Cérebro como se tivesse sido teleportada para perguntar a Juízo que disparate é aquele. Juízo, óbvio, se encontra por aí, preso pela visão das pernas de Libido, e Timidez solta furiosa todos os alarmes.

O corpo trava como nunca, se encolhe todinho. Os Pensamentos, principalmente os mais saidinhos, ficam naquela já citada posição “aimeudeuséagoraadeusvidacrueltavatãobompraserverdadesoutãorecémcriadopramorrer!” Dessa vez não tem Juízo do outro lado da linha pra dizer que tá tudo bem, que nada vai acontecer, nem Insanidade Temporária pra dizer que a “velha bruaca” só apita, mas não faz nada. Tá todo mundo perdido por aí, meio bêbado (ou seduzido) e sem saber se volta pro lugar certo ou não.

Libido suspira. Estava tão bom pra ser verdade… Dá um beijo no canto da boca de Juízo, e lhe diz em voz macia que fica para a próxima enquanto caminha levemente para seu quarto todo de cetim e seda, sem causar suspeitas na velha. Imaginação recolhe as obras que pode e as guarda. Cada um dos seres que habita o Cérebro balança a cabeça com tristeza e pensa: “Ela está velha, uma hora morre e pára de fazer esse auê todo por aqui.”

No Corpo ninguém pensa nada. Está tudo um caos por lá, o Cérebro está incomunicável e ninguém sabe o que fazer.

E a Timidez, no auge da sua fúria grita, esbraveja e reclama com todos. Mas, se um Pensamentozinho daquele resolve enfrentá-la, ela nem vê. Ou vê, acha fofinho, bonitinho, aperta as bochechas do “netinho” e deixa-o seguir caminho e ele, acanhado e confuso vai fazer, muito lentamente de início, aquilo que foi criado para fazer, seja isso dançar, cantar em público ou soltar no Centro de Fala um “cala a boca e beija logo”.

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Ciúmes

Agosto 8, 2008 · 3 Comentários

Eita que agora vai ser a dança dos sentimentos doidos. Primeiro um conto em duas partes sobre timidez. Agora um relato do bichinho verde que eu não sabia que em mim habitava.

Estranhamente eu não tenho ciúmes do meu namorado. Acho muito legal vê-lo tocando (guitarrista do Old Boys, lembram-se?) e tenho um certo orgulho dos bracinhos fortes e definidos dele de fora, o que aumenta quando vejo que outras também gostaram. Falando assim é meio infantil, mas passa um pensamento pela minha cabeça: “Gostou, né? Mas é meu e ninguém tasca!” E não, não é tão possessivo como pode parecer.

Eu poderia falar aqui das outras qualidades do meu digníssimo respectivo, mas isso é um post sobre o verdinho supra-citado, não uma “ode ao namorado perfeito”.

Namorado vai viajar. Com a banda. Hoje, 08/08/08, para Campina Grande para fazer um show. Volta depois do show… ou não: resto da banda decidiu que quer curtir. Inicialmente eu ia. Mas se eu for, alguém que o povo acha que é inconveniente vai querer ir também. E tem integrantes que acham que minha presença vai inibi-los de curtir. Fazer o quê? Eu não sou da banda, não me cabe nem achar ruim. Eles não querem, eu fico.

Primeiro pensamento que passa pela minha cabeça: “que droga, já tava tão animada que ia fazer algo completamente fora do meu comum na sexta-feira, agora vou ficar aqui, entediada nessa cidade mixuruca”. Como se Campina Grande fosse lá grande coisa… Mas não é o lugar, são as pessoas: meu namorado estará lá. A banda estará lá. Fiz grandes amizades dentro dessa banda e o povo é muito divertido. E aqui eu vou ficar… Olhando minhas paredes azuis?

Aí vêm os pensamentos negativos, que eu, como boa drama queen, não posso deixar de ter. A van vai bater na ida, eles vão morrer e eu nem vou ficar sabendo; vai acontecer alguma coisa, terão que parar no meio da estrada, vai ser todo mundo assaltado e não vão ter nem os documentos pra provar serem quem são; a van vai bater na volta, todo mundo vai morrer, eu não vou ficar sabendo e a última coisa que eu vou ter falado com meu namorado é “Bom show”, “Valeu, tenho que desligar agora, beijo”; eles vão fazer algo bem divertido que eu iria querer ter feito e vou ficar chateada porque não fiz quando ouvir a história…

Aí, quando namorado fala em “os meninos querem curtir” aparece aquela coisinha maligna roendo meu cérebro pelos cantos. Pronto. Alguma sirigaita vai se atirar nele depois do show. Pior: ele vai se atirar em uma sirigaita. Em várias sirigaitas. E eu nunca vou saber. Ou o pesadelo dos pesadelos: ele me contará tudo no dia seguinte, arrependido e querendo que eu tome uma decisão pelo nosso futuro e a abestalhada aqui, que é louca apaixonada e já está planejando a cozinha planejada minimalista b&w do nosso apartamento daqui a 5 anos não vai saber o que fazer e vai se esvair em lágrimas durante uma semana inteira.

(Tá pensando o quê? Eu sou uma drama queen de nascença, não é porque o sentimento é novo que a dramaticidade não será teatricamente grandiosa.)

Claro que se Tico e Teco se juntarem, eu verei que não tem motivo pra isso. A cozinha minimalista b&w é desejo mútuo e ele não vai sair colocando pontinhas em mim assim, a torto e a direito. Estamos falando de um rapaz decente e convicto de suas opiniões, dentre elas a de que um relacionamento deve ter confiança mútua, lealdade, fidelidade e etc. E eu acho que ele está feliz e satisfeito e que não sente necessidade de ir buscar algo na praça. Vai à praça buscar o que não tem em casa aquele que é incapaz de dizer o que falta e resolver o problema.

Daí se segue uma guerra sanguinolenta. O ciúme invadindo tudo como um vírus e a razão e o bom senso bancando os anti-corpos, numa luta desigual única e exclusivamente por causa da minha imaginação fértil que dá pano pra manga tanto pros melhores quanto pros piores pensamentos.

Resumindo: por favor, me tirem de casa e não me deixem nem cogitar a possibilidade de pensar no que o digníssimo pode fazer em CG além de dedilhar a guitarra e conversar miolo de pote com os amigos. Inconsciência também pode dar bons resultados

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