Eram umas nove da noite. As paredes me oprimiam. Ela disse que, de vez em quando, pegava o carro e dirigia até o Cabo Branco, ficava lá, olhando o mar, depois voltava pra casa. Cada um estava ocupado com alguma coisa, peguei as chaves do carro e dirigi até chegar na BR. Sabe, às vezes dá vontade de ir dirigindo na pista atééé Recife! Seria bom pegar a BR vazia e dirigir até acabar a estrada ou a gasolina, ouvindo música, sem nenhum outro carro a vista. Segui para o norte. Não iria poder ir muito longe, mas Intermares daria para o gasto.
O mundo estava vazio em Cabedelo. Na principal de Intermares, paralela à praia, não havia quase ninguém. Uma ou outra dupla de pessoas conversando na mureta da praia. Fui até onde não tinha mais calçadinha, mal tinha iluminação. Peguei uma ruela de onde, durante o dia, eu poderia ver o mar imenso e resplandescente ondulando à minha frente. Mas era noite. Mantive o farol alto aceso e o carro ligado. Olhava o breu estendido ali na frente e pensava na vida. Ou fingia que pensava. Minha mente estava tão clara quanto a paisagem invisível na minha frente. Sempre quis fugir pra uma praia deserta. Sol, mar, sombra, ventinho, nenhum sinal de civilização até abandonar as areias brancas e a água azul, translúcida…
Podia ver dali a praia de Tambaú e suas luzes, nas ruas, nos prédios e sabe-se lá mais onde. Mas estava lá. Brilhando. Como se houvesse uma vida intensa e interessantíssima para se ver. Sempre gostei da iluminação da cidade à noite. É bonita e, não sei bem o porquê, nostálgica. Olhava para Tambaú, apreciando a vista e pensando com desdém naquele convite para a vida interessante que, na verdade, não existia. Mas ainda assim, gostava das luzes.
Peguei a principal de Intermares de volta. Não era muito seguro continuar ali, sozinha na praia dentro de um carro numa viela escura. Tudo bem, estáva em uma cidade pacata, mas poderia acontecer algo, não poderia? Não é sempre assim? Basta descuidar e você tem uma arma apontada para a sua cara e uma situação amedrontadora em volta. Olhei uma última vez para as luzes e comecei a dar ré. A vida pulsando ali, com certeza interessante para alguém, e eu desejando que o mundo parasse. Engraçado como esse caminho me parecia tão comprido quando eu era criança…
Segui para Tambaú. De repente uma vontade de ver gente se precisar interagir, sem precisar participar. O trânsito, os outros motoristas disputando a passagem, os semáforos rápidos no verde e tão lentos no vermelho. Se os carros tivessem braços, eles estariam se acotovelando em volta das ruas da Feirinha, brigando por uma vaga, para entrar primeiro, para fugir da chuva fina que começava a cair. A água pingava sobre o pára-brisa com uma dúvida existencial de quem não sabe se vai ou se fica. Se cai logo com tudo ou se deixa se levar pela preguiça e pelo vento. Naquela noite eu não poderia dizer se ia chover de verdade ou se era só uma garoa e tudo bem, vamos saltitar de um bar para outro, à pé e sem guarda-chuva.
Cruzei cada uma das ruas apinhadas. A noite começava naqueles bares. Vários carros estacionados, algumas pessoas espalhadas nos estabelecimentos, outras chegando. Dali a algumas horas, mais da metade estaria bêbada. Para muitos uma solução, para outros, um problema. Cada um tem seus modos de escapar da realidade.
Depois de passar por cada bar, peguei a rua da praia e fui devagar. Devaneando, pensando sobre o tempo, sobre aquelas pessoas, sobre as prostitutas caminhando nas calçadas da praia de Tambaú e os velhinhos sentados nas muretas em grupo, conversando e olhando as prostitutas que passavam. Na velhice, você não vai assistir mais filmes se não os assistia antes. Não vai aprender a bordar ou a tocar violão. Você vai fazer exatamente aquilo que fez a vida inteira durante o seu tempo livre. Por um momento fiquei pensando num velhinho que observava atentamente as pernas de uma puta, mal protegidas por uma minúscula saia. Será que o velhinho vai pelo menos perguntar o preço do programa? Era um velhinho tão velhinho, será que ele vai ser capaz de fazer com a moça das pernas nuas tudo aquilo que ele está imaginando? Será que ele tornará a noite dele mais interessante? Provavelmente não.
Os bares nas proximidades de Manaíra estavam abrindo. O Picuí, o Mr. Caipira… O copo de licor de menta cintilava verde sobre a mesa. “Eu tive uma idéia interessante.” “Mesmo? Qual?” Era quase como se tivesse luz própria. As ruas foram me levando de volta para casa, passando por casas, prédios, lojas e sua pretensão de que um dia faça frio de verdade em João Pessoa, bares e seus atuais e futuros bêbados. Uma leve dor de cabeça subia pelas minhas orelhas, pela minha testa, até o alto do crânio. Tão leve… talvez a dor estivesse em dúvida se deveria acontecer. Seres vacilantes à minha volta e só o que eu queria era espairecer, respirar. A dor de cabeça se estabeleceu enquanto eu abria o portão. Ao menos o nó na minha garganta se desfez.









